“Remuneração médica e renda da paciente ditam regras do parto” conclui estudo de economista

O Informe da ENSP (Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz) divulgou hoje uma informação importantíssima sobre a “epidemia de cesárias” que ocorre em nosso país. Segundo estudo de Tabi Thuler, autora da dissertação Evidências de indução de demanda por parto cesáreo no Brasil, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), quanto maior é a diferença de valor pago pelo plano de saúde por cesariana em relação ao valor pago para partos normais, maior é o índice de cesarianas. A análise foi feita com base nos partos realizados por um plano de saúde do estado de São Paulo entre 2004 e 2009. A pesquisadora se surpreendeu com o fato de que as indicações clínicas não foram as justificativas mais recorrentes para a cirurgia, e que a falta de dilatação chegou a justificar 25% dos casos.

Além disso, a renda da paciente apareceu como outro forte indicativo para o parto cirúrgico. Quanto maiores os ganhos da mãe, mais a cesariana aparece como opção. Isso retrata a confluência de duas coisas: a busca dos médicos por maiores ganhos e uma cultura intervencionista na saúde da mulher – ainda pouco estudada. Não é o medo da dor o fator preponderante nas cesarianas eletivas, mas a busca da “conveniência”, daquilo que parece mais cômodo e “controlado”. Porém, sabemos que a aparência de controle de uma cirurgia complexa como a cesária esconde consequências perigosas para mãe e bebê, como a imaturidade pulmonar e do sistema nervoso, dificuldades para a amamentação e o vínculo inicial, infecção hospitalar, etc.

Mas, outro problema real e pouco debatido foi levantado pelo Informe: a baixa remuneração dos médicos ao atenderem partos normais. De fato, nessas situações, eles precisam ficar à disposição por longos períodos, trabalhando mais tempo, mas recebem a mesma quantia ou menor valor do que no caso de cesarianas. Alguns profissionais consideram esta última mais arriscada, conferindo portanto maior periculosidade à prática médica – o que justificaria um ganho mais elevado.

O apoio e incentivo à atuação de outros profissionais de saúde no atendimento ao parto são formas de se resolver o problema da demanda financeira sem retirar das mulheres o direito de serem corretamente assistidas. Equipes multiprofissionais, contando com obstetrizes, doulas e parteiras, e dispositivos de atenção integral ao parto e nascimento, como as Casas de Parto, podem se ocupar das longas horas necessárias do trabalho de parto natural, e o médico cirurgião intervém, nesses casos, apenas à posteriori ou se identificada alguma complicação.  É assim que ocorre em países mais desenvolvidos, como na Inglaterra e na Suécia.

Este é um tema pouco discutido ainda. Pretendemos contribuir com as reflexões levantadas pela jornalista e blogueira Ceila Santos do Blog do Desabafo de Mãe. Entre na roda também! O que você acha sobre a demanda financeira ditando os rumos da saúde no parto?

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