Sobre mulheres, arte e publicidade

Sabe esses dias em que as coincidências são demais para serem desperdiçadas? Pois então… Hoje é um deles. Depois de passar uma tarde muito agradável na companhia de minha irmã, a artista visual Julia Pombo, debatendo, dentre outros temas, a questão da imagem corporal como reflexo ou crítica da diferenciação de gêneros em nossa sociedade, resolvi carregar pra casa um livro ótimo sobre os trabalhos e a vida de diversas artistas do século XX e XXI: “Mujeres Artistas” da editora Uta Grosenick.

Lá pelas tantas páginas, esbarrei com o capítulo sobre as Guerrillas Girls, e não pude deixar de ler e me mobilizar com o seguinte banner:

 

Na verdade, o banner estampado no livro era de 1989, exatamente igual a este aí, porém com os dados um pouquinho diferentes: ao invés de 3, 5 e ao invés de 83, 85%. Quer dizer, a situação não melhorou em nada… (suspiros e mais suspiros) UAU! Apenas 3% dos artistas do Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, eram mulheres, em 2004! E não só isso, mas 83% das imagens de nudez eram femininas.

Acontece que, sim, muitas mulheres (e homens) fazem trabalhos sobre o corpo e seus diversos atravessamentos. Afinal, o corpo é o anteparo que interage com as imagens, e é da relação com ele que surgem muitas questões para a arte. Então, daí vemos vários trabalhos com o nu. Mas, por que será que são mais comuns os nus femininos? Será que isso tem alguma coisa a ver com a escassez de trabalhos de artistas mulheres nos museus?

A gente pode pensar que, sim, as mulheres são mais tocadas por algumas questões acerca da sexualidade, da diferenciação de gêneros, da liberdade sexual – justamente por terem sido (e ainda serem) sufocadas pela cultura sexista/machista e tal. E talvez por isso elas usem mais seus próprios corpos como “objetos” de arte. Não é por acaso que muitas delas sentem-se compelidas a responder à essa cultura, escancarando seus atributos naturalmente femininos, em alguns casos, ou tornando seus próprios corpos imagens sem gênero, como matéria amorfa pronta a se transformar em qualquer coisa – livre dos papéis culturalmente distribuídos às mulheres.

Talvez essa primeira análise se aproxime do que Virginia Woolf defendeu no “Um teto todo seu”. Basicamente, que para as mulheres serem escritoras (ou seja, artistas), em seu tempo, lá pelo século XX, precisavam lidar com a dura realidade de não possuírem um teto todo seu, de dependerem de seus maridos ou pais. Trazendo pra cá, eu diria que talvez, a realidade não seja hoje de tanta dependência, mas ainda é difícil. A dificuldade da desigualdade, das relações de abuso ou dominação sofridas ao longo da vida, e muitas vezes de forma silenciosa, em relação ao gênero masculino, ainda produz em muitas mulheres a necessidade de discutirem em seus trabalhos tal esforço de transcendência – de superação mesmo. E, sim, certamente, elas usem bastante seus corpos para discutirem suas experiências pessoais dentro dessa realidade social.

Mas, o trabalho das Guerrilla Girls vem justamente contrapor aqueles que pensam que as mulheres só conseguem produzir arte sobre si mesmas. Aliás, ele vem denunciar a reprodução constante de uma demanda maldita para as artistas: a de exporem seus corpos com muito mais frequência que os homens. Pois é… pasmem: essa não é só uma demanda publicitária.

Corpos são também fragmentos. São pedaços de experiências, duras, sofridas, fortes, intensas, enfim. Não são apenas a imagem de um gênero, mas de pessoa. E também de como a pessoa pode co-existir com as coisas. Afinal, quando falamos em sustentabilidade estamos também chamando a atenção para como nossos corpos se relacionam com os objetos do mundo – naturais ou não. Assim, é claro que o corpo, feminino ou masculino, pode dizer muito mais do que sobre sexo ou diferenciação sexual. E assim a nudez pode e deve ser lida em diversos trabalhos artísticos.

 

Infelizmente, a publicidade é muito mais burra do que a arte. Se vemos tamanha desigualdade nos museus, imagina nas propagandas! O corpo feminino continua sendo idiotamente reproduzido como simples objeto de desejo masculino, para vender todo tipo de produto e ideia equivocada. Hoje, coincidentemente, também recebi o email de uma amiga falando da última propaganda televisiva protagonizada pela Top Gisele, que foi o Top do que há de mais idiota na publicidade contemporânea. Resumindo, a mensagem é “Você é brasileira, use seu charme”, ou seja, use seu corpo exposto em lingerie para “dominar” aquele que te domina. Porque afinal, você, mulher, tem que justificar a seu marido o seu péssimo hábito de gastar todo o limite do cartão de crédito. Concordo plenamente com o pedido do governo da retirada dessa peça publicitária do ar.

E assim como essa, existem vários exemplos de propagandas ridículas, feitas por gente que não consegue olhar para o corpo feminino/masculino/humano sem associá-lo à sexo. E mais, feita por gente que não consegue entender que os consumidores são inteligentes, e não compram apenas pelo impulso. Consumidores/as tem memória, guardam rancor, não esquecem do baixo nível de certas empresas e até decidem riscá-las de suas listas de compras depois de uma grande decepção.

*Imagem: Fragmento, Julia Pombo, 2010.

* Se quer ler mais sobre mulheres na publicidade, dê uma olhada na blogagem coletiva promovida pelo blog Uma Pitada de Cada Coisa.

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